Capítulo III
Paraíso?
"Os passos na chuva.
Ele caminha nela, meio que se escondendo em seu casaco, se agarrando, tenta envolver-se nele como o vento envolve as gotas de chuva. Posiciona-se em frente à escada, olha para cima, e sobe aceleradamente os degraus.
Chega ao quarto e bate na porta, ela a abre. Eles se olham.
Estranham-se, se encaram, então ela pede que entre, não com palavras, mas é possível entender.
Ele a toca em sua face, passa a mão levemente no seu rosto.
Ela segura sua mão, pede que entre novamente, sorri, talvez afinal, um sorriso não tão falso como de costume."
Ela fecha a porta, ao olhá-la, parece distante.
Cansada talvez? Como não poderia? Carrega um mundo nas costas que eu nunca imaginarei, não acredito que ela é tão forte.
Ele veio afinal. Não sei o porquê me importa, no fim das contas que importância há? Mas ele está aqui, posso abraçá-lo, e ao fazê-lo, recebo como resposta um abraço com carinho.
Quanto tempo penso em você garota você não imaginaria.
Não saberia contar a pequena eternidade que espero.
Tiro-lhe a roupa molhada, vou colocando-a sobre uma cadeira. A gravata que tiro com carinho, a camisa que abro aos poucos, depois que lhe tirei o casaco.
Digo a ele que está encharcado, ele ri.
Ela me diz que estou encharcado, um sentimento quase materno, digo a ela que nunca se encontra um guarda-chuva quando se precisa dele.
Deve ser isso mesmo, digo a ele.
Depois peço que se sente na cama, começo a tirar seus sapatos.
Diz-me que não precisa e digo a ela que tudo bem, que não me importo em fazer isso.
Pergunta-me se não é uma desculpa educada para não deixar o meu chão molhado!
Nós rimos.
Esse rosto bonito e suave, digo a ela que pare, ela me olha, e ficamos ali parados, olhando um ao outro.
Estica a mão novamente, passa ela em meu rosto, eu seguro-a junto a mim, e depois o abraço, ali, ajoelhada.
Diga que eu sou um sonho, só por hoje, por um instante. Repita, e me diga que eu sou um sonho, e quem sabe eu possa me tornar um mesmo, num sono gostoso adormecido ao som da chuva, e logo em seguida você acorde e eu suma num instante.
Existem marcas no pescoço, e quando tiro-lhe a blusa, percebo pequenos ferimentos e outras marcas no seu corpo, quando pergunto o que foi aquilo, ela me diz que não é nada.
Diz que agora está bem, tudo bem.
Se eu significasse alguma coisa...
Não, se eu tivesse alguma importância na vida dela, talvez eu pudesse fazer alguma coisa.
Tocamos os rostos um no outro, colando-os.
Nesse quarto depois do frio de estar lá fora, depois do frio de viver lá fora, ela é o calor que eu preciso.
-Lembrasse da primeira vez que nós vimos?
-Por que?
-Não lembra...
-Lembro sim, só quero saber por que você perguntou.
-Então deixa pra lá! Te pergunto outra coisa?
-O que?
-Você sabe onde é o Paraíso?
Não! Não sei garota, esperava que você soubesse, porque você é a coisa mais próxima do paraíso que eu cheguei.
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