Derramadas são as palavras sobre a vida dos homens nas páginas da história.
Sobre o caminho dos homens, sobre seus encontros, tão fúteis, tão ingênuos.
Caminhando pelas mesmas calçadas manchadas pelas mesmas marcas dos mesmos dias do mesmo cotidiano.
Quando se percebe, já se está de volta à cama, no mesmo quarto de sempre, na mesma mesmice de paredes e fatos. Fotos e lembranças de uma vida igual, de um dia igual a tantos outros que já não se podem contar quantos tão bem.
Você olha para o teto, e vê nele tanta importância quanto olhar ao chão, os sapatos estão ao pé da cama, e você sabe o que acontecerá nas próximas horas.
As mesmas pessoas, as mesmas horas, os mesmos problemas, de maneiras diferentes.
Estou cansado, mais de viver do que de estar vivo.
Há uma janela metafórica em algum lugar que sei (ou imagino saber pelo menos) que ao me debruçar sobre ela verei novamente um mundo muito antigo, de tempos remotos, de lembranças, onde viver era estar acordado para se brincar com o mundo.
Levantasse então da cama, primeiro se suspira, movesse os pés.
Logo após me espreguiço e olho para as pontas dos meus dedos, para ter certeza que estão lá, e para crer que ainda estou aqui.
Coloco o primeiro o pé esquerdo sobre o chão, depois o direito, nunca o inverso.
O chão está frio, por isso os levanto e os deixo sobre o chão, no ar, por alguns instantes para que entendam sua função, para que se lembrem, acordem de seus sonhos e lembrem que sua função é me sustentar.
Tomo banho, tomo café, a roupa será a mesma que eu uso todos os dias.
Chegasse ao trabalho, faço o que me pedem, escuto ordens, escuto compromissos, e responsabilidades.
No almoço irei ao mesmo lugar que vou todos os dias, para comer todas às vezes a mesma comida de sempre.
Volto para o trabalho, outras verdades, e um mar de palavras escorridas na corrente do dia: o que fazer, quando fazer, até que horário deve estar sobre a mesa. Envio por e-mail ou imprimo? Faço uma tabela, talvez eu deva fazer no Power Point, ou editar no banco de dados?
Um mar cinza, asfalto, calçadas, rua, prédios, avenidas.
Brilhantes a luz do sol, e cinzentos a luz dos olhos.
Ao acordar, não é mais cedo, as horas passam, mas não importam, são lentas e obesas, se arrastam ou relógio é preguiçoso, talvez seja isso! Talvez de tanto encará-lo, tenha se zangado e irado resolveu contrariar o tempo.
O tempo se zanga e como vingança torna seus ponteiros pesados, rígidos e fixos, um fardo pesado e difícil! O relógio então os move bem lentamente, milímetro por milímetro, tentando forçosamente indicar as horas.
Talvez eu deva comprar um novo, mas as horas não me importam e se eu tivesse uma tarde infinita, talvez eu pudesse ser feliz, meus olhos pudessem descansar e eu me esquecesse de tudo e de todos.
Falto algo! Faltam flores?Faltam flores aos olhos.
No vazio deste quarto, serão algo completo, eu comprarei rosas, quero sentir o perfume de rosas e olhá-las em um jarro de água, algo tão simples e tão belo.
Sim definitivamente comprarei algumas hoje:
Que da beleza sejam das mais belas.
Que das vermelhas sejam as mais vivas.
Que possam ter o encanto que não acaba, que possam ter a beleza que ninguém compra.
Lindo tom, tom da vida, do sangue pulsante de nossas veias!
Mar de pétalas vermelhas cor de vida.
As mesmas palavras cinza da mesma tinta cinza se apagam ao caminhar do tempo.
Se espera então viver uma vida aquarelista, cheia de cores e pinceladas notáveis buscando nos dias, suas cores mais bonitas.
Fúteis homens, adoráveis humanos.
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