São quase cinco e meia da tarde, eu desço pela rua, caminhando preso ao meu casaco e a minha pasta, está um ótimo frio, coisa que convenha eu não estou acostumado.
Tudo bem! Acho que posso suportar! Uso duas blusas, e me agarro a esse casaco como se não pudesse viver sem ele.
Quando pela rua, consigo ver, as pequenas lembranças de um tempo curto de memórias, aquelas lembranças do cotidiano que mais cedo ou mais tarde irão sumir como quase tudo numa cidade, devorado pelo tempo, pelas mudanças, pelo dinheiro, pelo espaço, pelo crescimento, pelo nada enrustido de outra forma ou nome.
O carrinho de pipoca, e o cheiro da manteiga, delicioso. O cheiro da loja de doces, do qual eu me acostumei mais jovem a ir comprar diariamente balas e um ou dois bombons sobre a critica de minha mãe de que não se deve comer muito chocolate.
O asfalto, meu caminho, parte de mim.
Saio do quarto, desço as escadas e caminho pela calçada, nessas ruas, não tão jovens e belas quanto poderiam ser a algum tempo, ainda posso ver o pôr-do-sol de sempre, mas o céu é bonito, principalmente para aqueles que não tem nada de bonito para ver além disso.
Quero seguir esse caminho, de preferência o mais longo até loja de flores. E se eu for por trás da rua, vou poder sentir o cheiro dela à distância: o cheiro das flores.
O caminho das flores, como nas historias que meu pai contava quando criança, no mundo de fadas onde todas podiam caber na palma da sua mão. Com casas pequeninas, e habitantes pequeninos, lamparinas pequeninas, telhados pequeninos em escolas do tamanho de uma caixa de fósforos.
Havia um balanço no edifício onde eu morava, e se prestasse bastante atenção, na primavera, podia sentir um perfume suave das flores das arvores desabrochando.
Nada demais, só um balanço.
Droga! Tenho que parar de comer essas porcarias na rua, mas não posso fazer nada, devem ter colocada alguma coisa nessa porcaria de hot-dog, como pode ser tão gostoso!
Compro uma garrafa de suco e continuo seguindo meu caminho, não posso deixar de notar algum alvoroço pelo caminho, quando percebo, há uma pequena multidão em frente ao ponto de ônibus.
Quando pergunto ao alguém o que aconteceu, ele logo responde:
-Você não soube? Houve um acidente na avenida a alguns metros daqui, foi um engavetamento total, dizem que o lugar está cheio de ambulâncias! Nossa! Parece que ninguém morreu, mas há uma série de feridos, até arrumarem a bagunça a avenida vai ficar com um trânsito terrível, e os ônibus provavelmente vão levar um século para chegar aqui!
Pelo que eu entendi não há muito que fazer, pois bem, pego o suco que comprei, saio daquele lugar e continuo seguindo agora em outra direção, já que não posso pegar meu ônibus normal, andarei um pouco e pegarei uma perua no sentido bairro, e de lá, pego um ônibus pro meu apartamento.
Nada como terminar um dia com uma caminhada para tentar chegar ainda mais cansado em casa! Ainda está claro, posso ir caminhando numa boa.
A loja de flores como sempre está linda, minha mãe sempre achava graça como as flores e as plantas sempre eram lindas na floricultura, mas um mês em casa e elas pareciam ter anos.
Lembro das Orquídeas que ela comprou coitada, floresciam uma única vez e pronto. Era divertido, não acho que fosse culpa da minha mãe, afinal, ela cuidava muito bem delas.
O perfume sempre é bom e adoro como as flores estão sempre bem colocadas, vivas, parecem eternas, há um colorido diverso aqui, tantas cores, que não há agora em mais nenhum lugar, um arco-íris de vida afinal, encravado como uma erva daninha no pavimento.
Resolvo comprar um monte delas, rosas vermelhas como eu pensava antes de sair de casa, embora as rosas brancas e os girassóis tenham chamado minha atenção.
Compro uma série delas e mando que faça um ramalhete, são vermelhas e bonitas como eu queria. Pago à senhora japonesa que é dona da loja e que me atendeu, ela é ciumenta com suas flores diz que devo colocá-las em um lugar fresco, não muito abafado, num jarro de água não muito fria, poderia se estranhar um pouco, mas depois de vê-la algumas vezes, você se acostuma ao jeito dela, ela está aqui a sei lá quanto tempo fazendo isso.
Nós nos despedimos e vou embora.
Às vezes eu acho que essa cidade é feita de corações de gelo e quando você olha essas pessoas dessa cidade fria e cinza na rua, quanto mais centro é um bairro, mais frias vão ficando as pessoas que estão na rua. Caminham se desviando uma das outras quase sem olhar para ninguém, conversam invariavelmente sozinhas ao telefone (há algum tempo, isso poderia ser estranho) hoje sua melhor companhia é um celular mesmo.
Talvez seja mais agradável conversar com alguém que pode não estar nem mesmo no país em que você atendeu ao telefone.
Comemos comida que não é comida, com sabor que de tão artificial pode te fazer achar que está comendo goiabada quando na verdade está comendo chuchu super aromatizado, cheio de conservantes e outras substâncias, o tipo de coisa que, por exemplo, podem colorir o seu jeans ou o chiclete de mascar que você deu para sua sobrinha.
Você pode ver as vítimas de todo esse sistema de vida andando como zumbis pelas ruas, agora mesmo passa por mim uma delas.
Se tivesse que descrevê-la poderia sucintamente dizer: homem, gordo, , meio calvo, mas, gravata e um casaco bonito e preto, sapatos brilhantes, óculos e o celular companheiro inseparável que ouve tudo o que você diz, sem reclamar, sem contrariar.
Longos passos, rápidos e constantes, vivendo a frenética vida urbana (nada mais justo a um dos seus colaboradores) como formigas em sociedade, caminhando apressadamente de um canto a outro, para no fim voltar ao mesmo lugar.
Ele espaçosamente caminha. Caminha? Não! Corre de forma educada pela calçada cheia de gente! Desvia-se de uma, duas, três pessoas! Lamentavelmente esbarra na quarta que esta saindo de uma floricultura com um ramalhete de flores na mão! Coitada, não tem tempo nem de ver direito o que a atingiu e as rosas vão ao chão.
Você pode vê-lo desviando o pescoço enquanto segue em frente, em movimento, levantando a mão com um gesto que em algum lugar, alguma tribo, alguma distante civilização poderia se considerar como algum tipo de desculpas. Em pouco tempo, você consegue vê-lo desaparecer em alguma esquina, no meio da multidão.
As flores são pisoteadas, algumas ainda restantes, se mantêm inteiras quando as pessoas percebem e tentam desviar do que estão pisando.
Aproximo-me, pego uma das rosas e estico minha mão para devolvê-la.
-Oi! Toma! Posso ajudar?
Tudo bem! Acho que posso suportar! Uso duas blusas, e me agarro a esse casaco como se não pudesse viver sem ele.
Quando pela rua, consigo ver, as pequenas lembranças de um tempo curto de memórias, aquelas lembranças do cotidiano que mais cedo ou mais tarde irão sumir como quase tudo numa cidade, devorado pelo tempo, pelas mudanças, pelo dinheiro, pelo espaço, pelo crescimento, pelo nada enrustido de outra forma ou nome.
O carrinho de pipoca, e o cheiro da manteiga, delicioso. O cheiro da loja de doces, do qual eu me acostumei mais jovem a ir comprar diariamente balas e um ou dois bombons sobre a critica de minha mãe de que não se deve comer muito chocolate.
O asfalto, meu caminho, parte de mim.
Saio do quarto, desço as escadas e caminho pela calçada, nessas ruas, não tão jovens e belas quanto poderiam ser a algum tempo, ainda posso ver o pôr-do-sol de sempre, mas o céu é bonito, principalmente para aqueles que não tem nada de bonito para ver além disso.
Quero seguir esse caminho, de preferência o mais longo até loja de flores. E se eu for por trás da rua, vou poder sentir o cheiro dela à distância: o cheiro das flores.
O caminho das flores, como nas historias que meu pai contava quando criança, no mundo de fadas onde todas podiam caber na palma da sua mão. Com casas pequeninas, e habitantes pequeninos, lamparinas pequeninas, telhados pequeninos em escolas do tamanho de uma caixa de fósforos.
Havia um balanço no edifício onde eu morava, e se prestasse bastante atenção, na primavera, podia sentir um perfume suave das flores das arvores desabrochando.
Nada demais, só um balanço.
Droga! Tenho que parar de comer essas porcarias na rua, mas não posso fazer nada, devem ter colocada alguma coisa nessa porcaria de hot-dog, como pode ser tão gostoso!
Compro uma garrafa de suco e continuo seguindo meu caminho, não posso deixar de notar algum alvoroço pelo caminho, quando percebo, há uma pequena multidão em frente ao ponto de ônibus.
Quando pergunto ao alguém o que aconteceu, ele logo responde:
-Você não soube? Houve um acidente na avenida a alguns metros daqui, foi um engavetamento total, dizem que o lugar está cheio de ambulâncias! Nossa! Parece que ninguém morreu, mas há uma série de feridos, até arrumarem a bagunça a avenida vai ficar com um trânsito terrível, e os ônibus provavelmente vão levar um século para chegar aqui!
Pelo que eu entendi não há muito que fazer, pois bem, pego o suco que comprei, saio daquele lugar e continuo seguindo agora em outra direção, já que não posso pegar meu ônibus normal, andarei um pouco e pegarei uma perua no sentido bairro, e de lá, pego um ônibus pro meu apartamento.
Nada como terminar um dia com uma caminhada para tentar chegar ainda mais cansado em casa! Ainda está claro, posso ir caminhando numa boa.
A loja de flores como sempre está linda, minha mãe sempre achava graça como as flores e as plantas sempre eram lindas na floricultura, mas um mês em casa e elas pareciam ter anos.
Lembro das Orquídeas que ela comprou coitada, floresciam uma única vez e pronto. Era divertido, não acho que fosse culpa da minha mãe, afinal, ela cuidava muito bem delas.
O perfume sempre é bom e adoro como as flores estão sempre bem colocadas, vivas, parecem eternas, há um colorido diverso aqui, tantas cores, que não há agora em mais nenhum lugar, um arco-íris de vida afinal, encravado como uma erva daninha no pavimento.
Resolvo comprar um monte delas, rosas vermelhas como eu pensava antes de sair de casa, embora as rosas brancas e os girassóis tenham chamado minha atenção.
Compro uma série delas e mando que faça um ramalhete, são vermelhas e bonitas como eu queria. Pago à senhora japonesa que é dona da loja e que me atendeu, ela é ciumenta com suas flores diz que devo colocá-las em um lugar fresco, não muito abafado, num jarro de água não muito fria, poderia se estranhar um pouco, mas depois de vê-la algumas vezes, você se acostuma ao jeito dela, ela está aqui a sei lá quanto tempo fazendo isso.
Nós nos despedimos e vou embora.
Às vezes eu acho que essa cidade é feita de corações de gelo e quando você olha essas pessoas dessa cidade fria e cinza na rua, quanto mais centro é um bairro, mais frias vão ficando as pessoas que estão na rua. Caminham se desviando uma das outras quase sem olhar para ninguém, conversam invariavelmente sozinhas ao telefone (há algum tempo, isso poderia ser estranho) hoje sua melhor companhia é um celular mesmo.
Talvez seja mais agradável conversar com alguém que pode não estar nem mesmo no país em que você atendeu ao telefone.
Comemos comida que não é comida, com sabor que de tão artificial pode te fazer achar que está comendo goiabada quando na verdade está comendo chuchu super aromatizado, cheio de conservantes e outras substâncias, o tipo de coisa que, por exemplo, podem colorir o seu jeans ou o chiclete de mascar que você deu para sua sobrinha.
Você pode ver as vítimas de todo esse sistema de vida andando como zumbis pelas ruas, agora mesmo passa por mim uma delas.
Se tivesse que descrevê-la poderia sucintamente dizer: homem, gordo, , meio calvo, mas, gravata e um casaco bonito e preto, sapatos brilhantes, óculos e o celular companheiro inseparável que ouve tudo o que você diz, sem reclamar, sem contrariar.
Longos passos, rápidos e constantes, vivendo a frenética vida urbana (nada mais justo a um dos seus colaboradores) como formigas em sociedade, caminhando apressadamente de um canto a outro, para no fim voltar ao mesmo lugar.
Ele espaçosamente caminha. Caminha? Não! Corre de forma educada pela calçada cheia de gente! Desvia-se de uma, duas, três pessoas! Lamentavelmente esbarra na quarta que esta saindo de uma floricultura com um ramalhete de flores na mão! Coitada, não tem tempo nem de ver direito o que a atingiu e as rosas vão ao chão.
Você pode vê-lo desviando o pescoço enquanto segue em frente, em movimento, levantando a mão com um gesto que em algum lugar, alguma tribo, alguma distante civilização poderia se considerar como algum tipo de desculpas. Em pouco tempo, você consegue vê-lo desaparecer em alguma esquina, no meio da multidão.
As flores são pisoteadas, algumas ainda restantes, se mantêm inteiras quando as pessoas percebem e tentam desviar do que estão pisando.
Aproximo-me, pego uma das rosas e estico minha mão para devolvê-la.
-Oi! Toma! Posso ajudar?
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