Capitulo III
Encontro
Encontro
“Ela é linda!” é a primeira coisa que consigo pensar quando a vejo.
Ela sorri, e em seguida entrego a flor da minha mão, pego outra, e depois outra e continuo lhe entregando.
Usa um casaco vermelho, e longos cabelos lindos e dourados, os olhos verdes, mas escuros. Machuco-me com um dos espinhos das rosas, e minha mão se retrai, como uma criatura fugindo, como um inseto em fuga, se debatendo na teia da aranha até perceber o momento final.
-Machucou?
Ela me pergunta, é a primeira vez que escuto a voz dela.
-Imagina.
É claro que machucou, mas é obvio que eu não vou dizer! Não seria de todo ruim se tivesse sido a única vez no processo, mas infelizmente não foi assim.
-Estou bem!
Ela arranja as rosas, reunindo-as novamente, como num abraço ela as leva. Levantamos-nos e ela dá indícios que está indo.
-Obrigado.
Eu não sei o que dizer. Deveria dizer alguma coisa, talvez puramente dizer como ela é linda, ou como alguma coisa dessas que deve parecer tão fútil quanto falar do tempo. Deveria perguntar se tem algum tempo livre ou que vai fazer no fim de semana, qualquer coisa, mas tudo que eu digo é:
-Não gostaria de tomar um café?
Ela olha pra mim, pelo menos uma vez, com um pouco mais de atenção, não responde nada, só sorri, e se vira lentamente, na direção que supostamente estava tomando, você poderia vê-la, misturando-se a multidão, sumindo, como aquele homem de antes, em meio as formigas, em meio a vida.
Desaparecendo, pouco a pouco, até se perder de vista.
As rosas vermelhas me lembram como viver: o sangue das veias, as chamas de nossas vidas pulsando dentro de nós.
Vibrantes, rainhas das flores, eu as observo dentro do jarro em que as coloquei, imóveis e flutuantes, leves, orgulhosamente se mantêm acima do fundo, desprezam as leis da natureza e permanecem flutuantes delicadas como uma bailarina.
Eu as observo, neste fim de tarde, aos raios finais do poente. Ao ver o quase encerramento da morte teatralmente feito pelo Sol (uma morte inúmera, sem fim, nem eu nem você estaremos aqui para ver o verdadeiro último por do Sol, a morte da maior estrela, o nascimento do maior fim, tão vazio que sugará a todos nós) coloco-as ao chão e lá posso vê-las dentro de seu pequeno esquife de vidro, brilhantes e iluminadas. Prefiro mantê-las em direção aos raios deste fim de tarde, e esses pequenos raios, pequenos feixes de luz, incidem sobre o vidro, sobre a água, e em seguida refletem sobre o chão, desviados, deturpados, em pequenos movimentos que o vento causou ao sussurrar para as pétalas a canção desta tarde quente num pequeno suspiro fresco.
Elas levemente balançam ao som deste galanteio, e numa efêmera paixão, se movem alegres com seu tom, ouvem a música proibida aos homens, em tributo aos anjos e somente entendida pelos poetas.
O tempo passa, e o tempo é um cavalo sem mão que o pare, que o agarre, que o afague, que o impeça de seguir adiante, correndo... correndo... correndo...
Já se passaram duas semanas, e o que você espera depois de duas semanas?
Não se espera muito coisa não é? Na verdade, não se espera nada! E é assim que deve ser, acho que é pra ser assim mesmo! Você deve seguir sua vida, ela tem coisas interessantes que sei que estão por aí.
Quer dizer: ISSO É O QUE VC ESPERA! Não é muita coisa, mas venhamos e convenhamos, é o suficiente pra muita gente. Você segue sua vida, continua trabalhando, estudando e esquece.
Esquece um rosto bonito, porque há uma multidão deles por aí, embora quase nenhum tenha algum sentido. Esquece os olhos porque sabe que há tantos olhares, a perder de vista, no entanto, estão vazios, vazios como uma concha sem pérola.
Você esquece os passos. Passos há tantos que não importa! Não importa que estes ou aqueles pareçam especiais, você caminha cem deles em uma hora, e alguns milhares durante anos.
Estáticas mostram que cinco mil passos por dia e você terá uma vida saudável. Digo-lhe que cinco mil passos sem objetivo algum é algo que não vale o tempo de viver tanto.
Passos são minha maior companhia e às vezes quando não se tem mais nada a fazer, passos são a única coisa que resta, te levando em frente, te mostrando coisas ou lugares, pequenas coisas, pequenos lugares, pequenas ruas, ruas de pensamento, momentos de esquecimento. Em sua fronte, seguindo adiante, mesmo que às vezes, ao terminar, tudo que você queira fazer é voltar. Mas há mais de um caminho e mesmo voltando na mesma direção, ainda assim o caminho anterior não é mais o mesmo.
Quando entro no ônibus vejo um homem literalmente esparramado em um dos brancos da frente, ele parece adormecido, pago ao cobrador, e empurro a catraca, anda para o fundo do ônibus e lá sento em um dos bancos.
Por um momento me distraio, e no momento seguinte ele está em pé, próximo a mim. Descerei alguns pontos depois, esta não é a linha que normalmente sigo, mas a que uso infelizmente está com problemas dos quais não me recordo, e talvez nem me importe.
Sei que há um desvio no curso normal, por isso prefiro este outro. O ônibus se aproxima de onde quero, então me levanto, pressiono um dos botões de “Parada Solicitada” e logo desço quando a porta se abre, o homem continua no mesmo lugar.
Apenas um pobre homem sem destino talvez. Continuo andando e ao esperar o farol fechar, me debruço sobre o fato que do outro lado, na direção contrário, vejo o mesmo home que nem sequer saiu do ônibus, como é possível?
Quando o farol se torna vermelho eu atravesso, talvez impressionado com aquele fato intrigante, o pobre homem, segui seu caminho voltando quem sabe para o mesmo ponto de ônibus onde desci, talvez como zumbi, talvez como um calculista fazendo metodicamente o mesmo a todo o momento, talvez uma alma penada ou algo que não entendo.
Ou, no fundo, talvez ele tenha para onde ir! Eu por outro lado só estou de passagem.
Os degraus são simplórios (como todos os degraus) e você os desce impulsivamente, caminhando na direção que te levam, seguindo os próprios pés.
Estou sentado no banco da estação de trem, esperando como tantos os outros só seguir minha vidinha e voltar para casa. Não é tão mal fazer um caminho diferente, mas este horário não é dos melhores para se pegar um trem, talvez tivesse sido melhor pegar o metro, mas o trem me parece melhor, menos lotado de pessoas, se apertando por entre os vagões.
Faz me bem, parar um pouco naquele banco e esperar tranquilamente a chegada da máquina fria e metálica, sedenta por trilhos e horários. Agora que estou aqui posso relaxar com um pouco mais de espaço (coisa a que você não se habitua quando está num ônibus) e olhar ao meu redor, observar as pessoas neste fim de tarde frio e nublado.
Esperando pelo mesmo trem, você pode ver: jovens, pais e filhos, velhos, mulheres, homens, pessoas em cadeira de roda, gestantes. Ainda pode ver movimentos, contínuos movimentos, atentos ao relógio ou distraídos ao fone de ouvido.
E se você faz tudo isso, talvez no meu lugar, também notasse um casaco vermelho ao longe um tanto familiar. Um cachecol branco e delicado enrolasse num aperto apaixonado ao pescoço de seu usuário e luvas cobrem com carinho aquelas mãos que eu um dia vi. Mas notavelmente aquele casaco é de um vermelho de tom inesquecível, e na pessoa que o veste estão lá: os mesmos olhos verde-escuros, os mesmos cabelos dourados e ondulados.
É ela!
Aquele desgraçado, não poderia ter me arranjado um cliente mais longe, quem sabe assim eu só morreria de frio ao invés de sair por aí e ter que dar pra um pão duro. Pelo menos o lugar não era tão ruim, mas caramba, aquele idiota mendigou cada centavo que poderia e ainda teve a cara de pau de dizer que eu não sou uma “prostituta de luxo” para cobrar a quantia que estava cobrando! O que ele esperava? Que eu fosse de bom grado e amor a casa dele sem cobrar nada e abrisse as pernas para sua felicidade?
Homens!
Inquieta, ela permanece num pequeno circulo de espaço do qual ela mesmo se enclausura, mergulhada em seus próprios pensamentos e batendo levemente seu calçado no chão, aquelas botas com salto alto, repetidamente batendo de encontro ao chão. O maior detalhe de um impaciente!
O trem chega e caminhamos em direção as portas, eu a observo entrar, ambos entramos em portas diferentes, mas continua a olhá-la dentro do vagão, ela se esconde ao fundo, se ocultando em meio ao pequeno aglomerado.
Um homem a elogia, lhe dando uma cantada, ela o ignora, como se jamais estivesse ali (algumas mulheres são boas em fazer isso) e depois de alguns minutos abre sua bolsa revirando-a em procura de alguma coisa: tira alguns papeis e segura-os na mão, olha-os atentamente e enfia-os de novo na bolsa, com exceção de alguns que coloca no bolso.
Fecha a bolsa e tira do bolso um dos papéis, olha-o e ao que parece é uma foto, não posso ver o que é, mas parece fazê-la feliz. Chegamos em alguma estação, não me lembro o nome, não me importo com isso, até perceber que no tumulto, ela desaparece, não posso deixá-la ir novamente, não pelo menos sem saber seu nome, seu telefone, sei lá porra! Qualquer coisa!
Procuro entre os vultos o vermelho familiar. Por incrível que pareça, só consigo percebê-lo ao longe subindo as escadas, corro na direção dele, no entanto ele está muito a frente, com ela caminhando apressadamente os degraus.
E eu continuo correndo e apressadamente começo a subir a mesma escada quase sem fim que parece ser a daquela estação. Entre “Desculpas” e “Com licença” me vejo na metade dela em um instante! Vejo a mulher de vermelho esbarrar em alguém, derrubando alguma coisa dos bolsos enquanto sobe as escadas e some da minha vista. Continuo correndo, e estico minha mãe ao chão para pegar as coisas que caíram do seu bolso, para um momento para recolhe-las e depois continuo subindo, ao terminar a escada, não tenho a menor idéia de onde ela foi, permaneço alguns minutos ali, observando todos os lados, e até mesmo atravancando um pouco a subida de outras pessoas, mas nada, mais uma outra vez ela desaparece. Não sem pelo menos me deixar alguma coisa: uma conta de telefone no envelope e uma foto de uma criança, bonita e sorridente: um fragmento de lembrança.
Posso sorrir um pouco pelo menos, afinal, e o que são os homens sem esperança não é?
Ela sorri, e em seguida entrego a flor da minha mão, pego outra, e depois outra e continuo lhe entregando.
Usa um casaco vermelho, e longos cabelos lindos e dourados, os olhos verdes, mas escuros. Machuco-me com um dos espinhos das rosas, e minha mão se retrai, como uma criatura fugindo, como um inseto em fuga, se debatendo na teia da aranha até perceber o momento final.
-Machucou?
Ela me pergunta, é a primeira vez que escuto a voz dela.
-Imagina.
É claro que machucou, mas é obvio que eu não vou dizer! Não seria de todo ruim se tivesse sido a única vez no processo, mas infelizmente não foi assim.
-Estou bem!
Ela arranja as rosas, reunindo-as novamente, como num abraço ela as leva. Levantamos-nos e ela dá indícios que está indo.
-Obrigado.
Eu não sei o que dizer. Deveria dizer alguma coisa, talvez puramente dizer como ela é linda, ou como alguma coisa dessas que deve parecer tão fútil quanto falar do tempo. Deveria perguntar se tem algum tempo livre ou que vai fazer no fim de semana, qualquer coisa, mas tudo que eu digo é:
-Não gostaria de tomar um café?
Ela olha pra mim, pelo menos uma vez, com um pouco mais de atenção, não responde nada, só sorri, e se vira lentamente, na direção que supostamente estava tomando, você poderia vê-la, misturando-se a multidão, sumindo, como aquele homem de antes, em meio as formigas, em meio a vida.
Desaparecendo, pouco a pouco, até se perder de vista.
As rosas vermelhas me lembram como viver: o sangue das veias, as chamas de nossas vidas pulsando dentro de nós.
Vibrantes, rainhas das flores, eu as observo dentro do jarro em que as coloquei, imóveis e flutuantes, leves, orgulhosamente se mantêm acima do fundo, desprezam as leis da natureza e permanecem flutuantes delicadas como uma bailarina.
Eu as observo, neste fim de tarde, aos raios finais do poente. Ao ver o quase encerramento da morte teatralmente feito pelo Sol (uma morte inúmera, sem fim, nem eu nem você estaremos aqui para ver o verdadeiro último por do Sol, a morte da maior estrela, o nascimento do maior fim, tão vazio que sugará a todos nós) coloco-as ao chão e lá posso vê-las dentro de seu pequeno esquife de vidro, brilhantes e iluminadas. Prefiro mantê-las em direção aos raios deste fim de tarde, e esses pequenos raios, pequenos feixes de luz, incidem sobre o vidro, sobre a água, e em seguida refletem sobre o chão, desviados, deturpados, em pequenos movimentos que o vento causou ao sussurrar para as pétalas a canção desta tarde quente num pequeno suspiro fresco.
Elas levemente balançam ao som deste galanteio, e numa efêmera paixão, se movem alegres com seu tom, ouvem a música proibida aos homens, em tributo aos anjos e somente entendida pelos poetas.
O tempo passa, e o tempo é um cavalo sem mão que o pare, que o agarre, que o afague, que o impeça de seguir adiante, correndo... correndo... correndo...
Já se passaram duas semanas, e o que você espera depois de duas semanas?
Não se espera muito coisa não é? Na verdade, não se espera nada! E é assim que deve ser, acho que é pra ser assim mesmo! Você deve seguir sua vida, ela tem coisas interessantes que sei que estão por aí.
Quer dizer: ISSO É O QUE VC ESPERA! Não é muita coisa, mas venhamos e convenhamos, é o suficiente pra muita gente. Você segue sua vida, continua trabalhando, estudando e esquece.
Esquece um rosto bonito, porque há uma multidão deles por aí, embora quase nenhum tenha algum sentido. Esquece os olhos porque sabe que há tantos olhares, a perder de vista, no entanto, estão vazios, vazios como uma concha sem pérola.
Você esquece os passos. Passos há tantos que não importa! Não importa que estes ou aqueles pareçam especiais, você caminha cem deles em uma hora, e alguns milhares durante anos.
Estáticas mostram que cinco mil passos por dia e você terá uma vida saudável. Digo-lhe que cinco mil passos sem objetivo algum é algo que não vale o tempo de viver tanto.
Passos são minha maior companhia e às vezes quando não se tem mais nada a fazer, passos são a única coisa que resta, te levando em frente, te mostrando coisas ou lugares, pequenas coisas, pequenos lugares, pequenas ruas, ruas de pensamento, momentos de esquecimento. Em sua fronte, seguindo adiante, mesmo que às vezes, ao terminar, tudo que você queira fazer é voltar. Mas há mais de um caminho e mesmo voltando na mesma direção, ainda assim o caminho anterior não é mais o mesmo.
Quando entro no ônibus vejo um homem literalmente esparramado em um dos brancos da frente, ele parece adormecido, pago ao cobrador, e empurro a catraca, anda para o fundo do ônibus e lá sento em um dos bancos.
Por um momento me distraio, e no momento seguinte ele está em pé, próximo a mim. Descerei alguns pontos depois, esta não é a linha que normalmente sigo, mas a que uso infelizmente está com problemas dos quais não me recordo, e talvez nem me importe.
Sei que há um desvio no curso normal, por isso prefiro este outro. O ônibus se aproxima de onde quero, então me levanto, pressiono um dos botões de “Parada Solicitada” e logo desço quando a porta se abre, o homem continua no mesmo lugar.
Apenas um pobre homem sem destino talvez. Continuo andando e ao esperar o farol fechar, me debruço sobre o fato que do outro lado, na direção contrário, vejo o mesmo home que nem sequer saiu do ônibus, como é possível?
Quando o farol se torna vermelho eu atravesso, talvez impressionado com aquele fato intrigante, o pobre homem, segui seu caminho voltando quem sabe para o mesmo ponto de ônibus onde desci, talvez como zumbi, talvez como um calculista fazendo metodicamente o mesmo a todo o momento, talvez uma alma penada ou algo que não entendo.
Ou, no fundo, talvez ele tenha para onde ir! Eu por outro lado só estou de passagem.
Os degraus são simplórios (como todos os degraus) e você os desce impulsivamente, caminhando na direção que te levam, seguindo os próprios pés.
Estou sentado no banco da estação de trem, esperando como tantos os outros só seguir minha vidinha e voltar para casa. Não é tão mal fazer um caminho diferente, mas este horário não é dos melhores para se pegar um trem, talvez tivesse sido melhor pegar o metro, mas o trem me parece melhor, menos lotado de pessoas, se apertando por entre os vagões.
Faz me bem, parar um pouco naquele banco e esperar tranquilamente a chegada da máquina fria e metálica, sedenta por trilhos e horários. Agora que estou aqui posso relaxar com um pouco mais de espaço (coisa a que você não se habitua quando está num ônibus) e olhar ao meu redor, observar as pessoas neste fim de tarde frio e nublado.
Esperando pelo mesmo trem, você pode ver: jovens, pais e filhos, velhos, mulheres, homens, pessoas em cadeira de roda, gestantes. Ainda pode ver movimentos, contínuos movimentos, atentos ao relógio ou distraídos ao fone de ouvido.
E se você faz tudo isso, talvez no meu lugar, também notasse um casaco vermelho ao longe um tanto familiar. Um cachecol branco e delicado enrolasse num aperto apaixonado ao pescoço de seu usuário e luvas cobrem com carinho aquelas mãos que eu um dia vi. Mas notavelmente aquele casaco é de um vermelho de tom inesquecível, e na pessoa que o veste estão lá: os mesmos olhos verde-escuros, os mesmos cabelos dourados e ondulados.
É ela!
Aquele desgraçado, não poderia ter me arranjado um cliente mais longe, quem sabe assim eu só morreria de frio ao invés de sair por aí e ter que dar pra um pão duro. Pelo menos o lugar não era tão ruim, mas caramba, aquele idiota mendigou cada centavo que poderia e ainda teve a cara de pau de dizer que eu não sou uma “prostituta de luxo” para cobrar a quantia que estava cobrando! O que ele esperava? Que eu fosse de bom grado e amor a casa dele sem cobrar nada e abrisse as pernas para sua felicidade?
Homens!
Inquieta, ela permanece num pequeno circulo de espaço do qual ela mesmo se enclausura, mergulhada em seus próprios pensamentos e batendo levemente seu calçado no chão, aquelas botas com salto alto, repetidamente batendo de encontro ao chão. O maior detalhe de um impaciente!
O trem chega e caminhamos em direção as portas, eu a observo entrar, ambos entramos em portas diferentes, mas continua a olhá-la dentro do vagão, ela se esconde ao fundo, se ocultando em meio ao pequeno aglomerado.
Um homem a elogia, lhe dando uma cantada, ela o ignora, como se jamais estivesse ali (algumas mulheres são boas em fazer isso) e depois de alguns minutos abre sua bolsa revirando-a em procura de alguma coisa: tira alguns papeis e segura-os na mão, olha-os atentamente e enfia-os de novo na bolsa, com exceção de alguns que coloca no bolso.
Fecha a bolsa e tira do bolso um dos papéis, olha-o e ao que parece é uma foto, não posso ver o que é, mas parece fazê-la feliz. Chegamos em alguma estação, não me lembro o nome, não me importo com isso, até perceber que no tumulto, ela desaparece, não posso deixá-la ir novamente, não pelo menos sem saber seu nome, seu telefone, sei lá porra! Qualquer coisa!
Procuro entre os vultos o vermelho familiar. Por incrível que pareça, só consigo percebê-lo ao longe subindo as escadas, corro na direção dele, no entanto ele está muito a frente, com ela caminhando apressadamente os degraus.
E eu continuo correndo e apressadamente começo a subir a mesma escada quase sem fim que parece ser a daquela estação. Entre “Desculpas” e “Com licença” me vejo na metade dela em um instante! Vejo a mulher de vermelho esbarrar em alguém, derrubando alguma coisa dos bolsos enquanto sobe as escadas e some da minha vista. Continuo correndo, e estico minha mãe ao chão para pegar as coisas que caíram do seu bolso, para um momento para recolhe-las e depois continuo subindo, ao terminar a escada, não tenho a menor idéia de onde ela foi, permaneço alguns minutos ali, observando todos os lados, e até mesmo atravancando um pouco a subida de outras pessoas, mas nada, mais uma outra vez ela desaparece. Não sem pelo menos me deixar alguma coisa: uma conta de telefone no envelope e uma foto de uma criança, bonita e sorridente: um fragmento de lembrança.
Posso sorrir um pouco pelo menos, afinal, e o que são os homens sem esperança não é?
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